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sábado, 26 de janeiro de 2013

Carta de Amor





Não mexe comigo
que eu não ando só
eu não ando só
que eu não ando só
Não mexe não
Não mexe comigo
que eu não ando só
eu não ando só
que eu não ando só
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Tenho zumbi, besouro, chefe dos tupis. Sou tupinambá. Tenho os erês, caboclo boiadeiro, mãos de cura, morubixabas, cocares, arco-íris, zarabatanas, curare, flechas e altares. A velocidade da luz no escuro da mata escura, o breu, silêncio, a espera… Eu tenho Jesus, Maria e José, Todos os pajés na minha companhia.
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos, o poeta me contou.
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Não misturo, nao me dobro. A rainha do mar anda de mãos dadas comigo. Ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim. É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo, garante meu sangue e minha garganta. O veneno do mal não acha passagem. No meu coração Maria acende sua luz e me aponta o caminho.
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Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã. Giro o mundo, viro, reviro. To no reconcavo, quem fez. Voo entre as estrelas, brinco de ser uma. Traço o Cruzeiro do Sul com a tocha da fogueira de João menino. Rezo com as 3 Marias. Vou além. Me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas. Durmo na forja de algum. Mergulho no calor da lava dos vulcões, corpo vivo da alma de Xangô.
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Não ando no breu…
Nem ando na treva…
É por onde eu vou
que o santo me leva
Não ando no breu…
Nem ando na treva…
É por onde eu vou
que o santo me leva
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Medo não me alcança, no deserto me acho. Faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo. Meus pés recebem bálsamos: Unguentos suave das mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro, No oásis de Bethânia. Pensou que ando só? Atente ao tempo. Não começa nem termina, é nunca, é sempre. É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra. Fulmina-me justo. Deixa nua a justiça
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Eu não provo do teu fel
Eu não piso no teu chão
E pra onde você for
Não leva meu nome não
E pra onde você for
Não leva meu nome não
Eu não provo do teu fel
Eu não piso no teu chão
Pra onde você for
Não leva meu nome não
E pra onde você for
Não leva meu nome não
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Onde vai valente? Você secou. Seus olhos insones secaram. Não veem brotar a relva que cresce livre e verde, longe da tua cegueira. Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, a qualquer som. Nem o bem nem o mal pensam em ti. Ninguem te escolhe. Você pisa na terra e não a sente, apenas pisa. Apenas vaga sobre o planeta. E já nem ouve as teclas do teu piano. Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona. Não tem alma. Você é o oco do oco do oco do sem-fim do mundo.
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O que é teu já tá guardado
Não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu que vou lhe dar.
O que é teu já tá guardado
Não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu…
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Eu posso engolir você, só pra cuspir depois. Minha fome é matéria que você não alcança. Desde o leite do peito da minha mãe até o sem-fim dos versos, versos, versos, que brotam no poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi. Se choro, quando choro, minha lágrima cai é pra regar o capim que alimenta a vida. Chorando eu refaço as nascentes que você secou. Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio.
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Vivo de cara pro vento, na chuva. E quero me molhar. O terço de Fátima e o cordão de Ghandi cruzam meu peito: sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.
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Não mexe comigo
que eu não ando só
eu não ando só
que eu não ando só
Não mexe não
Não mexe comigo
que eu não ando só
eu não ando só
que eu não ando só
Não mexe comigo…

[Maria Bethânia]

terça-feira, 1 de maio de 2012

Balada de Gisberta






Gisberta, nascida Gilberto Salce Júnior na cidade de S. Paulo, Brasil, há 46 anos, acabou morta no fundo de um fosso malcheiroso. A "mulher belíssima, muito cuidada, profundamente feminina e dócil", que chegou a Portugal há uns 25 anos, agonizou mais de 48 horas até soltar o último bafo de vida. As notícias anunciaram a morte de um homem, mas é no feminino que a tratam as associações que privaram com o transexual e lhe prestaram auxílio: "Era uma senhora", diz Raquel Moreira, do Espaço Pessoa, que lidava com "Gis" há quase dez anos.

Umas duas semanas antes de ser violentamente agredida no parque subterrâneo que lhe servia de casa, Gisberta confidenciou a uma técnica sobre "uns miúdos que de vez em quando apareciam na obra e se metiam com ela", embora não tenha referido qualquer agressão. Aconselhada a sair, afirmou apenas: "Posso estar muito mal, mas continuo a ter a força de um homem, não vai ser por causa de uns miúdos..." Mas Gisberta há muito estava débil, fruto das maleitas do HIV e da hepatite, que a deixavam cada vez mais fragilizada.

Foi-se alterando o acompanhamento que recebeu do Espaço Pessoa ao longo dos anos. Quando aquela instituição abriu portas, em 1997, o contacto era feito através das equipas de rua, que lidam com a população que se prostitui. Gisberta, que em tempos havia feito espectáculos de transformismo em algumas casas gay portuenses, vendia o corpo na Rua de Santa Catarina. Nani Petrova, um dos travestis mais antigos da cidade, lembra mesmo que "Gis" chegou a actuar em bares míticos como o Sindikato e o Bustos, mas "não fazia do show a vida profissional, era mais prostituição".

Todos assinalam a beleza de outros tempos e a sua cordialidade: "Era uma jóia, uma pessoa muito bonita, parecia uma rapariga autêntica, maravilhosa", descreve Petrova, que a conheceu há "uns vinte anos".
Também Raquel Moreira não esquece a beleza de Gisberta, entretanto destruída pela doença e pela toxicodependência.




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Gilberto Salce Júnior, ou melhor, a transsexual brasileira Gisberta foi assassinada na cidade do Porto, em Portugal, em fevereiro de 2006. Antes, durante dois dias, sofreu todo tipo de violência verbal e física, mantida sob cárcere, por um grupo de adolescentes (entre 12 e 16 anos de idade).
 
A "Balada de Gisberta", de Pedro Abrunhosa, restitui à personagem sua condição humana, destroçada; leva-nos, com tais informações extras, a pensar sobre as políticas públicas de segurança e respeito mútuo universais; e guarda de menores.

Cantada em primeira pessoa, a canção, com suas porções generosas de fantasia, realidade e delírio, pergunta: Qual é a participação de cada um de nós (ouvintes: tocados e chocados) neste monstruoso assassinato? O que motiva tais gestos? Corpo profanado pelas crianças-carrascos, que dizem estar "brincando", Gisberta exige resposta, ação e mudança coletiva e efetiva.

É com esta canção que Maria Bethânia fecha o primeiro ato de seu show Amor, Festa e Devoção (guardado em disco de mesmo nome, 2010). Transfigurada em Gisberta (a sem nome, sem sexo: só paixão e queda) a cantora imprime o tom mais que perfeito para marcar a saída de cena: quando perigo e encanto; alerta e convite nos envolvem.

Moradora de rua, arrastada, depois da tortura, para ser arremessada dentro de um poço d'água e morrer afogada, Gisberta é símbolo e signo de nossa condição (des)humana. Aliás, ela seria queimada viva, mas a água, ao invés do fogo, pareceu ser um final "melhor": já que o corpo afundaria, apagando para sempre a imagem de Gisberta e da "brincadeira infantil".

A água e seu mugido fez de Gisberta a sereia que não nos deixa esquecer o quão longe estamos do amor (potência sempre em desenvolvimento) coletivo. Se só o (trans)amor é real, Gisberta o chama: mesmo que ele esteja tão longe.
 
O amor é tão longe! Há limite para a brincadeira? Qual? O fato de Gisberta ser soropositiva e toxicodependente, como sugeriram alguns advogados? Quem matou Gisberta? A água ou as crianças?, perguntou o Ministério Público. Homicídio ou afogamento?

Importa mesmo saber? O fato é que todos (indistintamente) precisamos rever conceitos, pois, enquanto enche-se as micaretas LGBT, Gisbertas à mancheia morrem. Alguma coisa está fora da ordem faz tempo: militantes, ou não, precisam perceber isso.
 
"Perdi-me do nome, hoje podes chamar-me de tua", diz a Gisberta que fala na canção. Ela é uma legião: carrega na voz a multidão de marginalizados, que servem apenas para dançar em palácios, oferecer-se a mil homens, e logo depois ser descartados.

Urge responder à altura: dialogar e dizer a Gisberta que, acima dos fundamentalismos, ainda vale a pena e é possível sonhar e realizar dias melhores, sem juízos finais. Agora. Pois o céu da felicidade, de cada um e de todos, não pode esperar.
 

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Balada de Gisberta
(Pedro Abrunhosa)

"Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.

Eu não sei se um anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.

Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.

Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.

E o amor é tão longe,
O amor é tão longe
E a dor é tão perto."


Pesquisa realizada no blog Ser Feliz é Ser Livre
 

domingo, 18 de março de 2012

Oásis de Bethânia



Maria Bethânia apresenta em seu novo trabalho, compositores que ao longo de sua carreira, nos brindaram com belíssimas canções em que retratam a emoção na dor, na solidão e no amor. Dalva de Oliveira, tão prestigiada em seu repertório, se faz presente desta vez com "Calúnia" (Marino Pinto e Paulo Soledad). Bethânia assina o texto que precede "Carta de Amor" (Paulo César Pinheiro).
Estou contando os dias para poder ter essa obra em mãos...sou completamente apaixonado por Dona Maria. 
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“Oásis de Bethânia” vem com formato inédito em sua carreira: cada uma das 10 músicas do CD recebeu um arranjo inédito de convidados especialíssimos – de seu compositor ou de outro músico, que ainda participa tocando em cada uma destas criações. Djavan assina também o arranjo na inédita “Vive”, de sua autoria, além de participar com seu inigualável violão.
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Outros músicos deste quilate como Lenine, Hamilton de Holanda, Jorge Helder, Jaime Alem, Maurício Carrilho, Marcelo Costa e André Mehmari também trazem a sofisticação de seus arranjos, que se misturam à voz única de Bethânia, trazendo o tempero ideal para a sonoridade marcante deste novo disco.

1. Lágrima
2. O Velho Francisco (Chico Buarque) Participação de Lenine
3. Vive (Djavan)Participação de Djavan
4. Casablanca (Roque Ferreira)
5. Calmaria (Jota Velloso) / Não Sei Quantas Almas Tenho (Fernando Pessoa)
6. Fado (Roque Ferreira)
7. Barulho (Roque Ferreira)
8. Lágrima (Sebastião Nunes, José Garcia e José Gomes Filho)/
 Calúnia (Marino Pinto e Paulo Soledad)
9. Carta de Amor (Paulo César Pinheiro)
10. Salmo (Raphael Rabello e Paulo César Pinheiro)


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Postagem publicada com base em informações do blog Noticias da Quitanda

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A saudade mata a gente...



"O amor é sede depois de se ter bem bebido."


[Guimarães Rosa]
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Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E nas redes nas noites de frio
Meu bem me abraçava pra me agasalhar
Mas agora, meu Deus, vou-me embora
Vou-me embora e não sei se voi voltar
A saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente

 [Música: A saudade mata a gente, João de Barro e Antonio Almeida]
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P.S. Postagem dedicada ao meu amigo moreno, cearense e chato...rs.

domingo, 20 de novembro de 2011

Maria Bethânia interpreta Chico Buarque





Desde que pisou profissionalmente no palco pela primeira vez, em 1965, aos 18 anos, Maria Bethânia se firmou como a mais autoral das cantoras brasileiras e não parou de escrever para si uma trajetória singular na história da MPB. Ao longo de 45 anos de trabalho, conseguiu conciliar de forma magistral atributos aparentemente inconciliáveis: reverência ao passado e ousadia; independência artística e sucesso comercial; sofisticação e apelo popular. Foi a primeira mulher a vender um milhão de discos no país. Nunca se atrelou a movimentos, jamais se submeteu à pressão de gravadoras e sempre navegou na contramão do mercado. Tudo isso lhe garantiu uma carreira imaculada, que atravessa as décadas angariando a admiração fiel do público e da critica.
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Mais do que cantora, Maria Bethânia sempre gostou de se definir como intérprete. E com justa razão. Ela deu origem a uma linhagem de cantoras que, por força de sua interpretação, tornam-se quase co-autoras das canções que passam por suas vozes. E pelo timbre grave e dramático de Bethânia já passou, e continua a passar, o melhor da música brasileira.
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Entretanto, de todos os compositores que interpretou, nenhum ganhou mais sentido na sua voz do que Chico Buarque. Sem falsa modéstia, e com aval do próprio compositor, Bethânia costuma se dizer sua melhor intérprete. E não é para menos: em quase cinco décadas de carreira, já interpretou mais de cinqüenta de suas canções.
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Esta primeira série de shows – sempre apresentados em dias consecutivos – começa em Curitiba (Teatro Guaíra, de 18 a 20 de novembro) e depois segue para São Paulo (Via Funchal, de 21 a 23 de novembro), Ribeirão Preto (Teatro Pedro II, de 6 a 8 de dezembro), Goiânia (Teatro Rio Vermelho, de 16 a 18 de dezembro) e Recife (Teatro Guararapes, de 18 a 20 de janeiro).
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sábado, 29 de outubro de 2011

Poesia inflamada sobre Bethânia arde em bela reedição de livro guerreiro


Resenha de reedição de livro
Título: Maria Bethânia Guerreira Guerrilha
Autor: Reynaldo Jardim
Editora: Mobile / Debê Produções
Ano da edição original: 1968
Ano da reedição: 2011
Cotação: * * * *
       
É o travo nos dentes
Guerreira
É o trevo das coxas
Guerrilha
É o grito no canto
Guerreira
É o canto de guerra
Guerrilha
É o roxo acalanto
Guerreira
É o perdão de joelho
Guerrilha 

O trecho do poema polifônico Maria Bethânia Guerreira Guerrilha indica o ponto de fervura com que  o poeta Reynaldo Jardim (1926 - 2011) escreveu os versos editados em livro lançado originalmente em 28 de novembro de 1968, duas semanas antes da promulgação do Ato Institucional nº 5. Até então título de colecionador, disputado a tapas e preços exorbitantes em sebos, o livro-poema está de volta à cena em reedição luxuosa produzida sob a organização de Marcio Debelian e Ramon Mello. Subversivo no conteúdo e na forma (Jardim transpôs o conceito musical de polifonia para o universo da poesia ao estruturar seus versos inflamados com fontes, sonoridades e tempos diversos), o longo poema Maria Bethânia Guerreira Guerrilha ocupa todo o livro original e, por si só, já justifica a reposição em catálogo desse livro perseguido pela censura dos anos mais rebeldes do regime militar instaurado à força no Brasil em 1964. Inspirado pela histórica interpretação de Carcará (João do Vale e José Cândido) apresentada por Bethânia no espetáculo Opinião em 1965, Jardim concebeu poema em chamas que traduz a incendiária força dramática do canto da intérprete ao mesmo tempo em que espalha as labaredas do inconformismo dos mais valentes contra a mordaça oficial que asfixiava as liberdades - sobretudo a de expressão - naquele ano de 1968 que parece não ter terminado a julgar pela repressão e pelo patrulhamento ainda detectados no Brasil de 2011. Talvez por isso o livro de Jardim tenha tido sua primeira edição destruída em sua quase totalidade pelo regime opressor da época. Através de Bethânia, rotulada à revelia como cantora de protesto por conta do voo alto de seu Carcará, Jardim fez ressoar pela poesia o seu canto de guerra. Os versos incandescentes de Maria Bethânia Guerreira Guerrilha ainda queimam a língua de quem se curva face aos podres poderes, mas aquecem a alma dos que se levantam contra os desmandos, dos que se jogam sem rede de proteção. Altiva desde sempre, Maria Bethânia jamais se curvou, impondo desde sempre a personalidade forte de seu canto e de sua alma embebida em teatro e poesia - traço que fica nítido na leitura do caloroso perfil sobre a intérprete, publicado na revista Visão de 30 de novembro de 1967 e reproduzido na reedição de Maria Bethânia Guerreira Guerrilha ao lado de artigo do jornal O Sol sobre a cantora, de depoimento de Jardim sobre a saga heroica do livro - fala transcrita do curta-metragem Profana Via Sacra(Alisson Sbrana, 2010) - e da partitura de Gaivota, tema musicado por Lourdes Ábido a partir de alguns versos do poema que ora volta à cena, quase tão ardente quanto naquele inflamado ano de 1968, nesta oportuna reedição do guerreiro livro.
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Visto no blog Notas Musicais do amigo Mauro Ferreira.
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